Grupo Vínculo - Apoio voluntário especializado para cuidados com a vida

Relato de parto: Parto domiciliar planejado


O relato de parto de hoje é da Lina, uma mulher aparentemente frágil mas de uma força imensa. Lina e André viajaram muitos quilômetros até Campinas, participaram de nossos encontros, montaram sua equipe de parto e viveram uma linda e intensa experiência.


CARTA PARA ALICE

Querida Alice,
Primeiramente digo que te AMO. 
Guarde isto, pois este é o motivo de tudo ter sido feito do jeito que foi feito, este é o motivo de tudo, o amor.
Essa história começa muito antes de você, antes até do meu nascimento. Aliás, tudo começou para o meu nascimento.

Vamos imaginar assim: era uma vez um casal jovem, casados, começando a vida e à espera do seu primeiro filho, ou melhor, filha. O ano é de 1984.
Após uma consulta desastrosa com o primeiro médico obstetra, onde este após dar uma olhada, disse à jovem mãe que ela não poderia parir naturalmente já que era pequena demais para o “trabalho”. Mas como? Pensou a jovem mãe, a mãe dela havia parido 12 filhos, e a maioria deles em casa. Não contente, esse casal viaja cerca de 500 km para Curitiba para ouvir uma segunda opinião com o Dr. Moysés Goldstein Paciornik.
Dr. Moysés era um defensor do parto de cócoras, trabalhou com tribos indígenas e acreditava que as índias estavam certas.
E foi assim que esta criança nasceu, de cócoras (a mãe e o médico), com 8 meses de gestação, menos de 5 horas de trabalho de parto, na penumbra, no silêncio, e com o jovem pai cortando o cordão umbilical e desmaiando ao final de tudo.

Essa foi a história do meu nascimento, e eu adorava ouvir essa história quando era pequena, depois quando cresci, e até hoje, adoro ouvir e contar a história de como eu nasci, e como meus pais se importavam comigo desde o primeiro momento.

Com você não poderia ser diferente, como eu que nasci com tanto respeito e dignidade não poderia dar o mesmo a você? Na minha cabeça nunca existiu outro tipo de parto.
Mas 30 anos depois parecia que a sociedade havia regredido.
Quando fui procurar um médico que me tratasse do mesmo jeito que minha mãe foi tratada (tratar não no sentido de curar), só me deparei com médicos iguais ao primeiro que minha mãe havia se consultado ou pior.
Nos consultórios, na internet, nos relatos, na televisão, tudo o que ouvi foram indicações e justificativas para uma cesariana, parto normal? Só em vias anormais com posições e procedimentos não recomendados pela OMS, violências obstétricas.
Tudo o que parecia tão natural, tudo o que eu cresci acreditando, tudo o que havia acontecido comigo e com minha mãe, parecia não ter existido, para onde havia caminhado o “nascer” nesses 30 anos? Cada vez que eu tomava conhecimento deste novo mundo de “nascer” meu corpo sentia o frio, o gelado, as risadas sarcásticas, a fome, a sede, as privações, a luz exacerbada, o barulho, na minha cabeça não saía a imagem de uma enfermeira carregando um bebê pelas pernas, “igual a um frango”, ouvi certa vez.

Mas não podia desistir, aquele parto do qual eu tive direito e pelo qual meus pais haviam se esforçado para que acontecesse realmente aconteceu e em algum lugar ele ainda existia.

Senti-me jogada num vazio, não sabia por onde começar, e era uma corrida contra o tempo. Primeiro informar para convencer, já que o seu pai não estava certo desse “tipo” de nascer. De repente um mundo se abriu, reportagens e documentários começaram a surgir, famosas começaram a parir, conheci grupos de apoio às gestantes, grupos de apoio ao parto humanizado (que é como chamam esse “jeito de parir”, ou esse “jeito de nascer”, nem eu sabia que havia uma nomenclatura para nascer como eu nasci).

Tudo foi se encaixando divinamente. Sim, divinamente é a palavra. Você acredita que uma amiga da família é enfermeira obstetra? Mas ela mora em Campinas, e eu não moro mais lá, agora moramos na fazenda em Nova Andradina/MS.  Aqui parir de cócoras é coisa de índio, parto natural é para égua, para vaca, para cadela, para ovelha...
Então vamos para Campinas?  Vamos antes? Vai que nasce prematuro... Vai nascer no hospital? Obstetra humanizado lá tem, mas o plano de saúde não cobre. Vai nascer em casa? Mas e se houver complicação? Vai nascer pelo SUS? E se a equipe de plantão não respeitar a decisão da gestante? 
É, parir nos dias de hoje não é tão simples assim.

Fomos para Campinas, viajamos 850 km para parir. Decidimos por um parto domiciliar assistido com um plano B - se fosse necessário iríamos para o CAISM da Unicamp, é o hospital mais perto de casa.
Enfermeiras obstetras acertadas, doula acertada e doula back up acertada, posso falar que a minha equipe estava formada, Olívia com sua segurança, Alana com sua doçura, Renata com sua irreverência e paciência e Graciela com sua calma. Ter essa definição era como um peso tirado das costas, um alívio para a ansiedade que crescia dentro de mim, era como se já houvesse percorrido metade do caminho.  Meu parto havia tomado forma, agora era só esperar.

E como é boa a espera. Cada movimento intra-uterino, cada cm que a barriga crescia, cada peso ganho no final, cada visita da doula acompanhado de bolo e chá, sair para comprar uma coisinha que falta, e esperar.

Esperar é tomar consciência de que o parto é seu, mas o nascer é do bebê. É perder o controle. Ele decide quando e como vai nascer. A gente planeja, mas o amanhã só ao seu bebê pertence.
Esperar que o seu pai chegue do Mato Grosso do Sul a tempo, esperar que haja dilatação, esperar que haja ruptura da bolsa, esperar que não esteja tão frio, esperar.

Sexta-feira, 11 de julho de 2014 foi o dia que você escolheu para vir ao mundo, você esperou o papai chegar, mas não quis esperar ele cortar o cabelo. Também é o dia em que a Renata nasceu, isso mesmo, ela passou o aniversário doulando o seu nascimento, é também o dia da fundação da cidade de Andradina/SP, cidade que seu tataravô fundou.
Minha bolsa rompeu as 05:00hs da manhã, contrações leves. As 10:00hs as contrações haviam ritmado e o trabalho de parto era efetivo. Olivia chega junto com Renata, Olívia sai para almoçar, Olívia volta, Alana chega e a Alice nada...
Sabe Alice, o parto é um acontecimento muito íntimo e muito importante, só pessoas positivas, calmas, que acreditam em você e que te amam é que podem participar dele.  Sem contar que é um processo biológico complexo e perfeito. Qualquer fator pode atrapalhar a dança dos hormônios.
No seu nascimento e no meu parto, não podemos esquecer que também estavam lá a Carol, a Fabíola e aquela que é a razão e o começo de tudo isso, a Bá.

Não vou negar, dói. E dói muito. Mas é uma dor que o corpo sabe que tem um fim. E a Renata conhece um botão mágico, que quando ela aperta a dor passa, e ela segura a sua mão e diz que está tudo bem. E vem a Olívia que te examina e fala com toda a segurança do mundo que está tudo bem, e elas te olham com carinho e você sabe que não está sozinha, que está tudo bem.  E quando você quer uma analgesia desesperadamente, elas te lembram que a decisão é sempre sua, e você decide, decide que sabe que nasceu para fazer nascer, que o seu corpo conhece essa dança, que se sua mãe e sua avó e todas as que vieram antes de você sabiam dançar essa dança você também sabe, e se elas conseguiram você também vai conseguir.
Isso, Alice, é confiar no seu corpo, na sua natureza, nos seus hormônios, no seu instinto, é confiar em Deus.
Parir é o ato mais instintivo que existe no ser humano, mais até que lutar pela própria vida, é lutar pela perpetuação da espécie. Você não pensa, você não precisa saber fazer, cada gene do seu corpo sabe o que fazer, é puro instinto animal, e tentar racionalizar esse momento é que faz com que tudo dê errado.

E foi às 18h06min, horário da corrente de Maria, que você nasceu. Saiu, deu uma olhadela, e decidiu vir de uma vez. Deu uma choramingada, já que até hoje dizem que nunca ouviram você chorar, e mamou, ficou no colo meu colo, pele a pele, seu coração no meu. Seu pai cortou seu cordão umbilical depois que este parou de pulsar e de lhe dar os últimos nutrientes e imunidades, era a última vez que éramos NÓS, agora você ia ser você e eu ia voltar a ser eu. Não havia luz ofuscando seus olhinhos, nem colírios, nem aspiração das suas pequenas vias respiratórias, não houve episiotomia, nem lacerações, não havia barulho, nem frio, a placenta saiu naturalmente, a Alana te limpou e pesou com todo o cuidado e gratidão pela profissão que tem.
Pesou 3,180 kg, mediu 48cm.
Naquela casa onde meu pai, seu Di, se foi, hoje nascia uma filha, nascia uma mãe e nascia um pai.

Espero que um dia você possa sentir o que eu senti. Saiba que você nasceu num ambiente de respeito e de amor.
E é amor o que eu desejo para você, amor em todos os sentidos, amor que você me ensinou a sentir.

Te amo pra sempre.

Assinado: Mamãe.





Somos um GAPP

Somos um GAPP

Fazemos parte!